A “Loja do Zé”, também conhecida por “Estasom”, foi sem dúvida alguma, um dos redutos mais aprazíveis e simpáticos de Icaraí e porque não dizer de Niterói, e digo foi, porque infelizmente, encerrou suas atividades comerciais e culturais há alguns dias atrás, deixando uma legião de órfãos da apreciação da música e do bom “papo furado” e principalmente da prazerosa companhia do amigo “Zé”.
A loja 112, então localizada no fundo do Shopping 211, que tem entrada pela Rua Coronel Moreira César (uma das principais do bairro) e saída pela Rua Lopes Trovão – ou vice-versa, atraiu e reuniu por alguns anos, um público interessado por cultura em geral, mais especificamente por música e principalmente pelo prazer do bom papo, da boa conversa fiada.
Lá, eu e mais alguns “loucos” por música, e com muita história e boas estórias pra contar, tínhamos espaço pra falar de tudo um pouco: política, economia, sociedade, mal da sogra, mal da vida alheia (no bom sentido, é claro), casos e causos do passado e do cotidiano, filosofia (o forte do Zé), religião, futebol, e obviamente, música. Fãs de ópera, música clássica, rock progressivo, MPB, instrumental, jazz, blues, beatlemaníaco e etc conviviam harmonicamente, democraticamente. Tinha até sorteio mensal de brindes com direito a foto com o Zé e matéria em Jornal do Bairro (já fui sorteado e minha foto lá esteve pendurada por algum tempo). O Zé tinha de tudo um pouco e também fala de tudo um pouco.
Paraibano, sessenta e poucos anos, morador de Tribobó, de longa experiência no ramo do comércio, principalmente no de discos, Zé é um sujeito simpático, sempre educado e disposto, bem humorado e sempre com as respostas na ponta da língua. Todos se divertiam com o papo e o humor fino, felino e porque não cirúrgico do Zé. O sujeito é dessas figuras que não podem faltar num bairro (em crônica anterior, cheguei a propor iniciarmos um movimento solicitando a vinda definitiva para Icaraí – ou até mesmo uma invasão à Tribobó e o sequestro do Zé). O cara era um verdadeiro malabarista e se esforçava em atender a todos com muita paciência e total isonomia: lojistas vizinhos que chegavam a todo o momento para o bate-papo, amigos/fregueses frequentadores assíduos como eu, senhoras procurando CD’s ou DVD’s para presente, mal sabendo o que queriam e muito menos o título do disco (deve ser chato de atender), crianças querendo CD’s invariavelmente chatos e caros, mães com filhos agarrados e chorando
pelo colo e pernas, gente encomendando coisas difíceis ou quase impossíveis (quando ele não tinha, geralmente dizia já ter pedido a São Paulo – argumentação também utilizada para os pedidos e encomendas por telefone, que ele tratava com a mesma educação e presteza), gente engraçada e bem humorada, gente sem graça nenhuma e mal humorada e/ou mal educada, gente simples e gente besta, artistas, quase-artistas, ex-artistas e ex-quase-artistas do gênero, seguranças do shopping; enfim, uma verdadeira congregação, uma autêntica Confraria.
Portanto, a Loja do Zé foi, por um bom tempo, parada obrigatória em qualquer passeio descontraído pelo bairro, principalmente pra quem gosta e procura a boa música e muita conversa fiada, e já que estamos em tempos de mobilizações e reivindicações sociais pelo país a fora, plagiando (sem querer entrar no mérito) o movimento político “Volta Lula!”, conclamo aos companheiros órfãos como eu, a iniciar o movimento “Volta Zé!”.
Outro dia, através de um amigo do grupo, fui informado da possibilidade do retorno do Zé em um novo ponto, aqui mesmo em Icaraí, provavelmente após a Copa do Mundo.
Agora, é só torcer para que a notícia se torne realidade e preparar aquele “rolezinho” por lá!
“Volta Zé!”
Texto: Jocemar de Souza Barros




