Uma história fantástica, um belo caso de amor, uma curiosa e interessante pauta. A luta de um ex-padre, que se apaixonou e, depois de 11 anos, recebe do Papa, autorização para casar no religioso. O ex-padre Wilde Ricardo Rocha e Paula casam amanhã, dia 20/9, quinta-feira, às 20h, na capela Nossa Senhoradas Graças (São Vicente) em Icaraí, com a benção de sua santidade o Papa BentoXVI.

Esta é a história do ex-padre Wilde Ricardo Rocha, que apaixonado por uma jovem, largou a batina, casou no civil e, após 11 anos de resistência e luta, recebeu autorização do Papa Bento XVI, para poder contrair matrimônio na. Igreja Católica. Pai de dois filhos, Julia, do primeiro relacionamento de sua mulher, a Paula, e Lorenzo, com 11 anos, fruto de sua união com Paula. Mais nem tudo foi tão simples assim. Eles sofreram “o pão que o diabo amassou”, perseguições, preconceitos e dificuldades.

Resumo da História

Wilde Ricardo Rocha, o Padre Ricardo, foi pároco da Igreja de são Judas Tadeu, em Icaraí, Niterói. Muito querido, era conhecido por seu trabalho junto aos jovens, as famílias e os pobres, através de inúmeros trabalhos pastorais e sociais.

Na ocasião, ao deixar a batina, provocou grande polêmica. A história foi veiculada nos principais jornais do Rio e Niterói. Foi convidado pela TV Globo para prestar consultoria ao ator Nicola Siri, que na época interpretava o papel do padre Pedro na novela “Mulheres Apaixonadas”, contracenando com Lavinia Vlasack, que interpretou o papel de Estela. Padre Pedro viveu o mesmo dilema que o Padre Ricardo, que ficou entre o amor pelo sacerdócio e o amor por uma mulher.

Wilde Ricardo exercia um excelente trabalho em sua paróquia e conheceu Paula, uma jovem de 19 anos, que morava com os pais, nas proximidades da igreja, onde freqüentava. Ela foi mãe muito jovem e teve Julia. Voluntária de um orfanato católico solicitou ao padre Ricardo que fosse ao local abençoar uma sala nova, daí em diante estreitaram uma amizade. Paula se apaixonou. Após alguns meses, sofrendo calada, resolveu procurar Ricardo, que também era seu diretor espiritual, com quem desabafou. Ele lhe aconselhou que se afastasse da comunidade e procurasse outra paróquia, pois dizia que a distancia a ajudaria a superar seus sentimentos e com certeza encontraria outra pessoa que a faria feliz. Assim fez Paula, afastou-se, freqüentou outra comunidade e conheceu um rapaz com quem namorou, mas não deu certo.

Após um ano e meio, ela retornou para a igreja do padre Ricardo. Depois de um certo tempo, resolveu, mais uma vez, revelar sua paixão ao padre Ricardo, que para sua surpresa também disse que estava apaixonado por ela, mas que procurava reprimir o sentimento. Em conflito, tentava entender como poderia estar amando uma mulher e ao mesmo tempo amar o Sacerdócio. O dilema se estendeu e lhe foi consumindo sua alma, sua infelicidade tornou-se visível e insuportável, amava o sacerdócio e estava apaixonado por Paula.

Até que na quinta – feira Santa de 2001, após a missa, com todos os fiéis reunidos, ele anunciou sua decisão. Estaria se afastando do Ministério para repensar sua vocação. A repercussão foi imediata. A notícia alcançou as primeiras paginas de vários jornais. A comunidade paroquial se dividiu.

Na verdade, a história tomou conta da cidade e em todos os lugares se falava do padre que cativava os jovens e acolhia os idosos, mas que deixou a batina. Nas ruas eles eram apontados, a igreja condenava, os amigos se afastavam, a família se dividiu.Começaram a viver um grande drama e dificuldades com trotes e agressões. Certa vez, padre Ricardo teve que sair de casa no porta mala do carro para evitar manifestantes.

Após um ano, no dia 22 de Fevereiro de 2002, casaram-se no civil, o que provocou grande reação da igreja, com ameaças, feita por alguns padres, de ex- comunhão a parentes e amigos que participassem do ato. Mas o drama estava apenas começando. Com o passar do tempo, as dificuldades foram aumentando. De imediato, Padre Ricardo procurou l um emprego que lhe fora prometido na Prefeitura da Cidade, mas logo que o bispo soube procurou impedir argumentando que a igreja não permitia tal situação. Padre Ricardo tinha uma boa formação filosófica e teológica, contudo, para o mercado de trabalho essas faculdades não têm tantas opções. Em escolas religiosas foi proibido de lecionar, em trabalhos de entidades civis era impedido. Ficaram algum tempo sem trabalho e vivendo com a ajuda dos pais de Paula que davam abrigo e alimento. Alguns amigos também ajudavam financeiramente.

O tempo passou e por mais que mantivessem a vida recolhida sempre voltava à tona o assunto sobre o padre Ricardo. Ele conseguiu um emprego em um colégio particular como monitor. A vida era difícil e o vazio de não realizar obras sociais e espirituais também o deprimiam. Estava feliz com sua mulher e filha, mas faltava-lhe algo mais, viver sua vocação de servir. Até que alguns amigos lhe convidaram para abraçar uma vida política; hesitou, mas compreendeu que seria um meio de continuar sua missão através da vereança. Para ele, a busca do voto na comunidade em que exerceu o sacerdócio seria uma maneira de saber como o povo reagira a sua decisão de deixar o Ministério. A resposta foi positiva e confortadora, entenderam que, apesar de polêmica, a atitude foi honesta, corajosa e verdadeira.

Após alguns anos sua união ficou mais completa, pois nascera Lorenzo, o primeiro filho dessa união. Contudo, o preconceito ainda permanecia, uma vez que ainda não haviam recebido a dispensa sacerdotal (processo despachado pelo Papa para permitir que o sacerdote licenciado contraia matrimonio na igreja católica). O processo foi longo e após 11 anos, no mês de março de 2012, receberam a autorização para regularizar sua vida religiosa na igreja.

Agora, estão se preparando para o casamento, realizando, assim, o grande sonho de viver uma vida familiar em sintonia com Deus , com a sociedade e com a igreja.

Texto: Jornalista Mario Souza

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